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Silas Correa Leite

Silas Correa Leite

Silas Correa Leite tem 56 anos, é Teórico da Educação, Jornalista Comunitário e Coordenador de Pesquisas da FAPESP/USP em Culturas Juvenis. Começou a escrever aos 16 anos no jornal O Guarani de Itararé. De família pobre, migrou para SP em 1970 com 18 anos e a quarta-séria do curso primário. Voltou a estudar, fez Direito, Geografia. É Especialista em Educação (Mackenzie), com extensão universitária em Literatura na Comunicação (ECA) e Direitos Humanos e Cidadania. Autor de Porta-Lapsos, Campo de Trigo Com Corvos e do e-book de sucesso O Rinoceronte de Clarice, onze ficções, todas falando de Itararé. Premiado em vários concursos no Brasil e no Exterior. É autor do oficial Hino ao Itarareense. E-mail para contatos: poesilas@terra.com.br Site: www.itarare.com.br/silas.htm Blogues: www.portas-lapsos.zip.net e www.campodetrigocomcorvos.zip.net

Artigo

01/12/2010 Vestibular não é tudo


Vestibular não é tudo
Silas Correa Leite



Alguns pais altamente competitivos e exigentes de ocasião, mas não necessariamente bons pais no termo contextual da palavra, levam os filhotes a acreditarem que o VESTIBULAR é tudo. Os interesses às vezes escusos de algumas escolas particulares no mesmo fito, reforçam isso e levam os alunos-clientes a acreditarem mesmo (e friamente) que o bendito Vestibular é tudo. Parado aí! Vestibular não é tudo, cara pálida!
Claro que é importante, bicho, mas é apenas e tão somente um começo e marco como referencial da idade, um primeiro degrau, um fechamento de ciclo e começo de um outro altamente importante, um andar para cima, um período de travessia, vamos colocar assim. Pois é: o “teen” sai de um ensino médio e cursinho e vai sofrer o crivo de uma popular e famosa (e ocasional) peneira oficial, correndo riscos, é claro.
Falando francamente, já vi muito jovem não passar no primeiro filtro oficial, depois, num segundo também ficar fora e, de repente, após uma terceira tentativa eficaz, mudar a cabeça, o estilo, à vontade, e até a opção do que realmente queria inicialmente fazer, estudar bastante, pra valer, e passar de primeira na seqüência, se formando bem, alcançando sucesso e sendo um vencedor - e feliz na vida - que é isso mesmo que vale a briga e a nossa estadia dentro do que convenciono chamar o belo verbo Viver. Viver intensamente é a soma de lucros e perdas, acertos e erros.
Por outro lado, já vi uns caras aí passarem em primeiro lugar em mais de três faculdades públicas de altíssimo nível, darem um show como se sabichões, assumirem circunstancialmente por uma carreira como se definitiva e plena, iniciarem até relativamente bem o curso, mas, fraquejarem no andar da carruagem universitária, depois, não acabaram o curso iniciado tão alvissareiramente, enfim, desistiram, partiram pra outra, mudaram de trilhas e projetos, e acabam nem se formando, ou nem conseguindo um diploma de uma coisa e trabalhando em outra, quando não desesperados por terem tantas perspectivas - e tantas cobranças - e, na vida real, na verdade não conseguirem o tão almejado sucesso, até porque, vestibular é um momento, uma coisa, uma situação de percurso evolutivo, a vida real é outra história. Ficar cegando o filho com uma viseira só pelo vestibular por si mesmo de forma total e irrestrita, é receita xarope de pai bufão, de mãe limitada, até porque, perdoem, na verdade, pais de alguma maneira idiotas podem criar filhos banidos do social... É o que acontece e os pais nunca admitem, nem aceitam isso na cara dura. Pais incompetentes criam filhos infratores? Daí para pior. Filho é barra pesada às vezes.

Vamos com calma aí. Vestibular é bom, estudar precisa ser tornado gostoso, escola ajuda e forma (produz conhecimento), a leitura obrigatória de um bom jornal todo dia soma bastante, ter opções de cultura, esporte e lazer na soma configuram um jovem bem sustentado e, o principal, em casa, os pais estudando juntos, os pais construindo, com afeto, todos empenhados de que o jovem nesse estágio seja feliz inteiro, faça gostoso e bem feito o que pretende de própria decisão, não caindo num funil às vezes pouco ético e depois sendo sacrificado pela sociedade, dando com os burros nágua em todos os sentidos, por culpa de pressões inócuas, imposições, barbaridades ditatoriais de meio, pais cobrando mas sem conteúdos humanos.

Vestibular é útil, importante, faz parte de um crescimento de um ser humano aluno enquanto cidadão também. Mas não é uma bala na agulha, porque o tiro pode sair pela culatra, como no Japão, por exemplo, que grande parte dos jovens reprovados tentam o suicídio ou mesmo se atiram de um alto arranha-céu com esse propósito fatal. Devagar com o andor que o filho é gente, humano, pessoa, não máquina.

E estudar não é só um momento, um tempo, uma fase, uma circunstância. É todo um conjunto de situações pertinentes. Estudar é SEMPRE. O pai deve cobrar e acompanhar numa boa o filho a vida toda, sendo participativo, somando, ajudando, pesquisando junto, dando toques esclarecedores, dando exemplo, não simplesmente bancar um curso regiamente pago, um cursinho caríssimo, e depois achar que fez sua parte e o herdeiro que dê no couro, que faça sua parte direitinho, passe no vestibular de uma universidade federal da vida, pro pai contar palha pros amigos do bar ou do futebol (casados contra solteiros), pros vizinhos incautos, pros parentes pobres, se esquecendo que, do vestibular, com acesso a um estudo superior ou não, à formatura e mesmo o próprio delineamento de toda uma carreira profissional toda, há uma grande distância, um grande trajeto de anos com experiências e frustrações. Uma coisa até pode não ter muito a ver com a outra, até porque, tem muito profissional aí que ganha muita grana normalmente só com um curso técnico-profissionalizante, e tem muito alunaço de universidade pública vendendo hot-dog em camelódromo clandestino de esquina concorrida, porque o diploma não faz o homem que não se faz.

O filho vai ter que ler um livro obrigatório, um baita clássico? O pai lê primeiro, incentiva, discute, pega na internet comentários a respeito, resumo crítico, opiniões sobre o autor, outras obras dele e vai por aí a toada, ombro a ombro, pari-passu. Pai e filhos estudando juntos, crescendo o eixo da relação, pro filhote então se sentir seguro e encarar o vestibular numa boa, como um arroz-com-feijão de uma trivialidade em que a família se junta, soma e divide mesmo responsabilidades em afetos, conquistas e ocasionais sucesso de manejos e percursos, ou não. Tudo pode acontecer pelaí.

Passar no Vestibular é importante, faz bem pra saúde, pro bolso, dá um ocasional lustro no ego, mas não é tudo, no contexto, aliás, não é tudo e nem é muito numa verificação de valores e vivências. São anos de estudos, leituras, pesquisas. O filho pode se arrepender na escolha do curso, embalado pelos pais exageradamente corujas. O filho pode descobrir o amor de sua vida - que melhor lugar que uma faculdade? - pode estar com sua nova turma de alto gabarito, ter colegas sarados de cabeça para discutir abertamente os sinais de um futuro difícil (o neoliberalismo, a globalização), enfim, é comum ver muito pai frustrado porque o filho trancou matrícula, desistiu sem explicar porque, quando não cabulou aulas pra ir pra gandaia e perdeu o ano, ou foi jubilado mesmo, tudo porque deu um show no cursinho e no vestibular foi genial, e depois não era isso o que queria, não pegou o jeito, não sentiu firmeza, não levou fé. Afinal, a opinião pessoal do jovem é a que realmente vale. É do futuro pessoal dele que estamos falando. É a vida dele que está em jogo. Ele vai ter que juntar esforços com interesses pelas próprias mãos, pelos próprios pés, pois, afinal, há muito já saiu da barra da mãe e um dia vai construir um lar todo seu, ao seu jeito, ser parte de um novo núcleo social, quer os pais queiram, endossem, referendem ou não. Já pensou?.

Bem intencionados, os pais ás vezes são cegos ou bobos. Não valoram escola pública (acham fraca), votam mal (são culpados então), constrangem educadores de escolas públicas que ganham menos do que motoristas de caminhão (eis o erro crucial desses bicudos tempos tenebrosos) e na sua maioria das vezes os mestres mal-valorados (o holerite-cebola - rasgam e choram!) têm mais estudos e conhecimentos do que o pai e a mãe dos alunos juntos, mas, se os pais, com sacrifícios pessoais bancam um curso particular, e depois, loucos, exagerados, tendenciosos e parciais, despolitizados ao extremo, ainda cobram que o júnior saia-se bem na vida. E faculdade grátis vai acabar mais depressa do que pensam os mauricinhos e patricinhas. Há um cheiro limpo de mudança no ar. Cota de brancos? Cota de humanos?

Acho que podíamos continuar tendo escolas públicas, do primeiro grau ao quarto grau (pós-graduação), com cotas nas universidades para a clientela oriunda das camadas mais pobres da população, no ensino público, mas, convenhamos, o aluno fora desse meio que queira cursar gratuitamente (e se bem pontuado no vestibular), ao término do curso superior e quando começar ganhar dinheiro na profissão, tem que pagar essa gratuidade universitária em serviços públicos a favor da população carente. Ou não faria sentido, como não faz. Nada mais justo. Porque, conforme está, é errado, inidôneo, e só beneficia os filhinhos de papai da chamada classe dominante com suas riquezas injustas e seus lucros impunes, pra não entrar nos detalhes sociais da historicidade. A história do Brasil tem que ser repensada por uma democracia social...

Assim, bom cursinho de grife, decoreba de ocasião, contar palha disso e daquilo, incentivando o filho ingênuo para um canal que ele nem sabe direito o que realmente quer, é fria, não tem nada a ver. Os pais têm que abrir os olhos. Os tempos são outros. Outras realidades sociais. Ou, ficarão frustrados quando o inteligentíssimo, o ótimo aluno, o júnior culto e altamente sensível, um dia, na vida real, não for feliz, fizer besteiras por atacado, não ter boas relações afetivas, não ficar rico como todo o clã espera, não alcançar o sucesso tão esperado pela própria sociedade, porque, afinal, a vida real não é justa, nem todos têm o que merecem, e nem todos que merecem sabem o caminho certo para o sucesso, já que não há uma regra perfeita e acabada nesse sentido.
E, avaliando pelos pais que nunca estudaram e, de alguma forma têm alguma coisa, pode se concluir que, estudo é muito importante, mas não é tudo. E o vestibular nesse contexto é apenas uma situação avaliatória, como um exame seletivo pra servir o exército, uma entrevista pro carimbo no passaporte, um teste para entrar no mercado de trabalho, num tão sonhado primeiro emprego. E, podem crer, esse tal Vestibular do jeitinho babaca que é (em alguns casos suspeito) vai acabar e não vai demorar muito.

Os pais, na maioria das vezes acabam presunçosos, achando que só o filhinho deles - em quem investiram tanto - é quem vai dar um show, se esquecendo que somos um país do pior capitalismo (selvagem) possível, e a concorrência é desleal, pois são espertos e não experts os que mandam e vencem(...), e nem sempre quem estuda muito dá um bom retorno pro clã. Assim, vamos com calma. Depositem no herdeiro o maior crédito de afeto possível, estudem juntos, amem-no pelo que ele tem de características pessoais, peculiares, inerentes, ele é apenas uma madeira bruta que precisa ser aplainada pela vida, lembrando sempre de que a madeira torna-se flauta quando é amada.

Sobre o autor:
Silas Corrêa Leite, Teórico de Educação, Crítico Social e Jornalista Comunitário – Estância Boêmia de Itararé-SP/Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Porta-Lapsos, Poemas. Especialista em Educação, pós-graduado em Inteligência Emocional e Literatura na Comunicação (USP).
Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Editora-Design, SC, Contos Premiados
Blogue premiado do uol: www.portas-lapsos.zip.net


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